Cultura, França

Perfume francês

Se você gosta de perfumes (brasileiro ama!), muito provavelmente já consumiu um ou alguns frascos de perfume francês e também já se perguntou por que a França tem tanta tradição na fabricação desses liquidozinhos capazes de concentrar impressões, sensações e evocar lembranças.

Um pouco de história

Essas gotas de felicidade podem ter tido origem na Idade Antiga, entre os sumérios, na Mesopotâmia, onde hoje está situado o Iraque, e seu uso se difundiu entre outras civilizações antigas, como a egípcia. As técnicas de produção consistiam na concentração de essências em materiais gordurosos, tendo resinas, raízes e produtos animais como base.

Sua comercialização incrementou a economia de cidades fenícias e gregas, mas os progressos nas técnicas de fabricação só aconteceriam no final da Idade Média e no período renascentista, com o desenvolvimento do álcool etílico e de técnicas de destilação.

A perfumaria evoluiu lentamente, é fato. Mas quando a França entrou nessa história ela se propagou com mais rapidez.

O cheiro da realeza

Uma grande ideia normalmente deriva de um grande problema. Qual grande problema poderia estar associado ao impulso à arte da perfumaria na França? O mau cheiro, é claro! E a nobreza, por seu protagonismo na cultura do país, só podia estar no centro dessa questão também. Afinal, com a água pouco abundante, era difícil manter limpas todas as peças do figurino dos monarcas e do resto da corte: perucas, vestidos pesados, saias, saiotes, luvas e afins. E mais ainda, manter um corpo cheiroso debaixo desse arsenal todo.

Pra piorar, na corte de Luís XIV a água era vista como uma propagadora de enfermidades, e assim a higiene era, digamos, feita quase a seco. Além das perucas, usava-se pó nos cabelos para disfarçar a oleosidade. E para desviar a atenção sobre os odores corporais, obviamente, as pessoas se perfumavam.

Monumento a Jean Honoré Fragonard, pintor que inspirou o nome da Maison Fragonard. Foto: hellenco

A capital da perfumaria

Na Idade Média, a pequena cidade de Grasse, no sul da França, era uma referência na arte do curtume, ou curtimento do couro para a fabricação de muitos produtos, dentre os quais, luvas.

O couro (rústico/sem tratamento), mesmo de boa qualidade, exalava (como exala até hoje) um cheiro bem ruim, pois os métodos disponíveis na época para torná-lo fino e macio incluíam o uso de insumos pouco ortodoxos, dentre os quais excrementos de cães e urina de cavalo, na melhor das hipóteses.

E o que fazer para banir o bodum daquele finíssimo par de luvas fabricado pelos melhores mestres da arte do curtume? Perfumá-lo, obviamente. Nascia assim o ofício de “luveiro-perfumista” (gantier-parfumeur), que passou a ser representado por uma corporação fundada por Jean de Galimard. Foi dele a ideia de criar luvas de couro perfumadas em “bains de senteur”, ou “banhos de cheiro” e oferecer um par de amostras à rainha Catarina de Médicis.

Encantada com o cheiroso presente, ela se encarregou de espalhar a novidade pela corte, fazendo com que Grasse se tornasse a capital mundial do perfume e desbancasse outros centros em que a arte da perfumaria se desenvolvia fortemente, como Paris e Montpellier (esta última possuía até mesmo uma faculdade de farmácia encarregada da criação de unguentos e perfumes).

Pouco a pouco a pequena cidade perdeu o status de referência nas artes do curtume, mas acabou se dando bem ao adquirir a posição de centro mundial da perfumaria.

A arte e a técnica de extrair fragrâncias

Em Grasse foi desenvolvida a técnica que viria a ser conhecida como “enfleurage”. De execução simples, ela consiste na disposição de pétalas de flores em uma placa de madeira e na sua impregnação com uma espécie de banha inodora, que absorve o perfume até a saturação. Trocam-se então as flores, em um processo bastante lento, praticamente no ritmo da natureza, visto que as pétalas são substituídas a cada nova colheita.

O procedimento termina quando um quilo de banha satura de dois a três quilos de flores, dando origem a uma pomada que é decantada e tratada em álcool, o qual extrai desta pasta apenas o perfume.

Esta técnica está em vias de extinção devido ao tempo que demanda, ao seu custo altíssimo e à necessidade de uma mão de obra muito qualificada. Ao longo dos séculos, a escala industrial, a massificação do consumo dos perfumes e o desenvolvimento de fragrâncias sintéticas praticamente a tornaram inviável, porém ela certamente ajudou a França a se consolidar como uma referência no desenvolvimento de perfumes.

Está localizada em Grasse a Maison Fragonard, dona de alguns dos perfumes mais célebres da França. Foi fundada em 1926 pelo parisiense Eugène Fuchs e instalada em um dos mais antigos edifícios da cidade, construído pelo perfumista Claude Mottet, em 1841. A casa recebeu este nome em homenagem ao pintor Jean Honoré Fragonard, natural de Grasse e filho de um mestre luveiro-perfumista da corte. Ela possui também um delicioso museu onde se pode fazer um tour pela história da perfumaria. As visitas são guiadas e gratuitas.

Monumento a Jean Honoré Fragonard, pintor que inspirou o nome da Maison Fragonard

Listas são sempre controversas, mas se quiser saber mais sobre os perfumes das grandes maisons (não só francesas), aqui estão algumas sugestões de conteúdo em francês, pra você já ir se familiarizando:

10 grandes perfumistas, 10 grandes perfumes

O top 10 das marcas de perfumes preferidas dos franceses

Dossiê dos perfumes famosos

Quer aprender francês pra saber ainda mais?

www.francesmais.com

Publicado por Hellen Souza

Meu nome é Hellen Souza, sou jornalista e francófila, ou seja, adoro a cultura francesa. Aqui você encontrará informações sobre o que acontece atualmente nesse país que já foi berço de transformações sociais.

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